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O esporte sob a neve: Isa Fernandes e os desafios do esqui

A trajetória da brasileira que alcançou a mais alta certificação da modalidade

O esqui é um esporte que segue ganhando espaço e relevância ao redor do mundo. Embora suas raízes remontem à Escandinávia por volta de 8.000 a.C., quando era usado como meio de transporte, foi no século XIX que ele começou a se transformar no esporte que conhecemos hoje, ganhando técnicas, equipamentos e muitos adeptos. A inclusão do esqui nas primeiras Olimpíadas de Inverno, em 1924, consolidou sua presença no cenário internacional e impulsionou sua popularização.

Hoje, esse avanço histórico se traduz em um mercado robusto e em expansão. Segundo o levantamento de dados da Develop, agência de comunicação especializada em esporte e entretenimento, entre os principais mercados de esqui indicados pela Market Data Forecast em 2024, a Europa registrou mais de 40%, dividindo o ranking com América do Norte e a região Ásia-Pacífico. Um cenário que ajuda a entender por que o interesse pelo esqui continua crescendo e conquistando novos apaixonados ao redor do mundo.

Nos últimos anos, o turismo de inverno ganhou força entre os brasileiros. O Brasil representou 60% dos turistas em Valle Nevado, no Chile, em 2024, um acréscimo de 16% em relação ao ano anterior. Somente em 2023, foram quase 22 mil diárias reservadas por brasileiros, argentinos e americanos, um aumento de 63% em comparação a 2022 (Panrotas, 2024). Esse movimento reflete uma tendência global: o mercado de resorts de montanha e esqui está avaliado em US$ 18,01 bilhões em 2024, com projeção de expansão de 11,8% até 2033 (Market Data Forecast, 2024).

Mais do que números, esses dados apontam para um desejo crescente por experiências exclusivas no inverno, que unem aventura, conforto e aprendizado, um terreno fértil para histórias inspiradoras como a de Isa Fernandes. A instrutora de esqui é a primeira brasileira a conquistar o mais alto nível de qualificação no sistema educacional de instrutores de esqui dos Estados Unidos: o Alpine Level 3, uma certificação que a coloca entre uma elite mundial de profissionais reconhecidos pela excelência técnica e pedagógica. Formada em Esporte pela USP (2017) e pós-graduada em Neurociência e Comportamento Humano pela PUCRS (2020), Isa une conhecimento acadêmico, sensibilidade e paixão pelas montanhas em sua trajetória.

Com uma jornada marcada pela dedicação, estudo e uma relação profunda com o esporte, Isa oferece acompanhamento personalizado em viagens exclusivas, com foco em segurança, técnica e performance. Seu trabalho é voltado a quem busca transformar uma viagem de esqui em uma experiência única e inesquecível, seja aprimorando habilidades, explorando novas pistas ou simplesmente vivenciando o melhor do inverno.

Onde tudo começou 

Isa Fernandes em meio às paisagens de neve

Antes de conquistar as montanhas geladas do hemisfério norte, Isa treinava nos gramados brasileiros. Ex-goleira das categorias de base do Guarani de Campinas, ela buscava um novo propósito no esporte quando conheceu na faculdade um veterano que havia trabalhado em um resort de esqui nos Estados Unidos. A ideia de ensinar despertou sua curiosidade.

Aos 20 anos, decidiu embarcar para os Estados Unidos com um objetivo ousado: aprender a esquiar e se tornar instrutora, mesmo sem experiência. “Expliquei que nunca tinha esquiado direito, mas que sabia dar aula e eles toparam.” Em dois dias de treinamento, já estava nas pistas, acompanhando suas primeiras turmas de crianças. O progresso foi rápido. Nas temporadas seguintes, Isa passou a ensinar adultos, e em seguida aulas particulares, enquanto aprimorava técnica e ganhava confiança.

O Alpine Level 3 chegou em 2024, coroando anos de disciplina intensa — treinos diários, estudos e provas que exigiam o máximo do corpo e da mente. O caminho até lá começou em 2018, quando Isa soube que apenas instrutores com essa certificação poderiam integrar a renomada escola de Portillo, no Chile. Ainda assim, recebeu uma oportunidade temporária na equipe infantil, que acabou se tornando uma fase decisiva de aprendizado e evolução profissional. Depois de quase uma década de dedicação, Isa alcançou o mais alto nível do sistema americano de instrutores de esqui, um marco que, segundo ela, a tornou a primeira mulher brasileira a conquistar essa certificação.

Hoje, Isa é referência na prática de esqui, símbolo de uma nova geração de brasileiros que desafiam e conquistam espaço em esportes tradicionalmente distantes da nossa cultura. 

A disciplina por trás do esporte

Isa Fernandes esquiando em Utah nos Estados Unidos

Para Isa Fernandes, o esqui é mais do que uma profissão: é um espaço de autodescoberta e disciplina. “É um esporte que eu amo muito, foi onde eu me encontrei também na vida profissional”, resume. A relação dela com o esporte sempre foi marcada pela dedicação, algo que vem desde os tempos em que era atleta. “A vida de atleta é uma vida de rotina, em que você precisa abrir mão de muitas coisas. Quando eu era pequena e jogava no Guarani de Campinas, eu não ia às festas, ou se ia, voltava cedo. Já havia a preocupação com alimentação, hidratação e descanso. Desde cedo, a gente aprende a priorizar o que realmente importa.”

Com o tempo, os desafios deixaram de ser apenas físicos. As viagens e as temporadas no exterior trouxeram novas exigências emocionais. “No começo, tudo é novidade. Mas conforme a carreira vai crescendo, vem o peso da distância. Você está sozinho, sem seus pais, irmãos, amigos. A barreira cultural pesa muito. É aquela sensação de estar só, mesmo sabendo que tem uma rede te apoiando de longe.”

A solidão e o sacrifício tornaram-se parte da rotina de Isa, e também seu combustível. “Passei anos longe da família, abrindo mão de datas importantes para fazer o que amo. Todo atleta vive algum tipo de renúncia.” Essa força interior, diz ela, é o que a sustenta: “É preciso acreditar, mesmo quando parece impossível. Às vezes, a força vem de um lugar que nem a gente sabe de onde.”

Foram nove anos entre o primeiro certificado e o tão sonhado nível 3, um percurso de paciência, resiliência e fé no próprio potencial. “No começo eu achava impossível. Depois, comecei a perceber que dava. É muito difícil, mas é possível.”

O equilíbrio entre o mental e o emocional

Isa Fernandes em Portillo no Chile

Para Isa Fernandes, ensinar a esquiar vai muito além da técnica. O que poderia parecer um esporte radical se transforma, nas aulas dela, em um espaço de autoconhecimento e superação. “O esqui e o snowboard são esportes radicais que a gente trouxe para o meio recreativo. É uma coisa intensa, você está no meio da montanha, coloca dois equipamentos nos pés e decide descer. E, de repente, pensamos: e se todo mundo pudesse fazer isso?”, reflete.

Em suas aulas, Isa trabalha com alunos de todas as idades, dos dois aos setenta anos, e entende que cada um traz consigo um conjunto único de emoções e receios. “É uma coisa muito incrível. Dentro disso, a gente precisa pensar nas pessoas como seres humanos. O mais forte que a gente trabalha é o medo.”

Esse medo, explica, aparece tanto entre iniciantes quanto entre esquiadores experientes — e ela mesma não está imune. “Ele vem tanto no meu nível, quando estou esquiando fora de pista, em terrenos mais intensos, quanto no aluno que está começando. E esse medo geralmente vem da falta de experiência, de ainda não saber como reagir aos movimentos do esqui.”

Por isso, seu método de ensino é centrado na escuta e na antecipação. “Muito do meu trabalho é antecipar para a pessoa o que vai acontecer. Por exemplo, quando alguém diz: ‘vou cair muito’, eu respondo: ‘não vai’. As pessoas chegam com muito medo de se machucar, de romper o joelho, de não conseguir cuidar dos filhos se algo acontecer. Cada um tem o seu medo e o motivo por trás dele.”

Isa explica que o medo, se não compreendido, afeta diretamente o desempenho. “Quando a gente contrai o corpo por medo, ele endurece. E o esqui precisa de movimento, de fluidez. Então, antes de ensinar a técnica, preciso entender o medo da pessoa e trabalhar isso. Se ela está com medo, ela não está me ouvindo quando eu falo para abrir mais a perna ou inclinar o corpo, ela só pensa que vai cair.”

Essa escuta atenta e o cuidado com o emocional são, segundo ela, a base para qualquer aprendizado real. “Eu sempre começo respirando com o aluno, conversando, entendendo o que está acontecendo. Só depois disso eu ensino o esqui de verdade.”

O Brasil nas montanhas: a expansão da modalidade

Isa Fernandes vê na expansão do esqui entre brasileiros um movimento que vai muito além do turismo: é a formação de uma nova comunidade. “Eu me sentia um peixinho fora da bolha. Eu ficava pensando: gente, vamos falar de esqui! E agora estou encontrando vários brasileiros com quem posso conversar sobre o esporte. Era tudo o que eu queria.”

Esse sentimento de pertencimento é o que ela mais valoriza nas montanhas. “Cria-se um senso muito legal de comunidade. As pessoas vão se juntando, famílias, amigos e o esqui se torna algo que une gerações. Dá para ir com o pai, com o filho, com os amigos. É um esporte que conecta.”

Esse crescimento do esporte também despertou em Isa um novo propósito. “Quando conquistei minha última certificação, pensei: quero ajudar mais brasileiros. Lá fora, os estrangeiros se ajudam e percebi como a linguagem faz diferença. Quando você explica algo em português, tudo ganha clareza, tudo faz mais sentido. Foi aí que entendi que queria começar a dar mais aulas para brasileiros.”

Hoje, ela celebra ver o público brasileiro cada vez mais presente e atletas nacionais conquistando espaço no cenário internacional. “Está tudo conspirando para esse esporte lindo crescer cada vez mais. É incrível ver isso acontecer.”

Born to Ski: uma nova etapa da jornada

A história da Born to Ski começou com um grupo de empresários apaixonados por esqui que sonhavam em criar a primeira escola brasileira com simulador de neve de alta performance. “A Born foi uma ideia de um grupo familiar, empresários aqui no Brasil. Quando conversaram comigo, eles já tinham o espaço, a máquina, tudo pronto. Mas faltava alguém que realmente entendesse de esqui”, conta Isa.

Entre as conversas com os idealizadores do projeto, um encontro em especial marcou o início da parceria. “Quando falei com o Marco Parisotto, um dos sócios, percebi a genuína paixão dele pelo esporte. Havia entusiasmo e uma visão clara de que o esqui poderia alcançar mais pessoas e promover aprendizado de qualidade.”

Hoje, a Born to Ski representa mais do que uma escola, é um projeto que une técnica, inovação e propósito. “O mais bonito é ver que realmente vai ajudar as pessoas. Os sócios são apaixonados por isso, e eu também. Quando percebi que seria um espaço para ensinar de verdade, pensei: é aqui que eu quero estar.”

O que o esqui ensina sobre nós mesmos

Isa Fernandes nas montanhas Cariboo no Canadá

“Quando a gente se coloca em situações desconfortáveis, é quando realmente se descobre. O esqui é isso: um enorme exercício de autoconhecimento”, ressalta Isa. Ela acredita que as pistas revelam muito sobre quem somos fora delas. “Cada um tem seus medos, suas ansiedades, suas manias. E, de alguma forma, tudo isso aparece quando você está esquiando. Eu mesma precisei quebrar meu perfeccionismo e entender que tá tudo bem se não for 100% o tempo todo. Essa lição vale para a vida também.”

Mais do que técnica, o esporte ensina sobre confiança e presença. “Tem muita gente que chega insegura, achando que não vai conseguir. Aí eu pego na mão da pessoa, mostro o movimento, e quando ela percebe que consegue, é transformador. Às vezes, tudo o que falta é confiar. Pensar demais atrapalha — no esqui e na vida. Só respira e vai.”

Isa sorri ao tentar resumir tudo o que o esporte representa. “Cada pessoa tem o seu ritmo. Uns querem evoluir, outros só curtir com a família. O importante é estar ali, presente, aproveitando. Porque no fim das contas, todo mundo é feliz no esqui. Não tem como não ser.”

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