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Jiu-jitsu: disciplina, tradição e alta performance

3 de julho de 2026
Do tatame à liderança: por que as artes marciais conquistaram empresários e CEOs

Entre reuniões, telefonemas e decisões que impactam negócios inteiros, empresários têm encontrado no jiu-jitsu um espaço inesperado de pausa e, ao mesmo tempo, de reconstrução. No tatame, a mente desacelera, mas o aprendizado se intensifica: mais do que um esporte, a jornada revela caminhos para lidar com pressão, incerteza e tomada de decisão.

Nos últimos anos, o Brazilian jiu-jitsu deixou de ocupar apenas o espaço de atividade física para assumir um papel mais amplo, o de ferramenta de alta performance. Em um contexto em que foco, controle emocional e clareza estratégica se tornaram ativos essenciais, a prática ganhou espaço entre atletas, executivos e profissionais em busca de disciplina e equilíbrio.

Origens e tradição: o peso da história

Embora hoje dialogue com o universo da alta performance, suas origens são antigas. Técnicas de combate corporal surgiram há milhares de anos, foram refinadas no Japão e, já no século XX, chegaram ao Brasil com Mitsuyo Maeda, aluno de Jigoro Kano. A partir daí, ganharam identidade própria com a família Gracie, que transformou o país em referência mundial na modalidade.

Décadas depois, o esporte também amadureceu em seu propósito. Se antes era centrado na formação de competidores, hoje se expande como prática de desenvolvimento pessoal, movimento que pode ser observado em academias como a Gracie Morumbi.

Gracie Morumbi: onde a prática ganha forma

Equipe da Gracie Morumbi: Leopoldo Casco, "Mestrinho" e Arnaldo Bueno (da esquerda para a direita)

Fundada em 1999, quando o jiu-jitsu ainda era pouco difundido em São Paulo, a Gracie Morumbi acompanhou de perto a transformação da modalidade, de um ambiente voltado quase exclusivamente à competição para um espaço mais amplo de formação. “Com o tempo, entendemos que o objetivo não era apenas formar atletas, mas desenvolver pessoas”, afirma o sócio e administrador Leopoldo Casco. Hoje, mais do que um centro técnico reconhecido, a academia se posiciona como um ambiente de aperfeiçoamento pessoal, onde disciplina e evolução caminham lado a lado.

Essa cultura se reflete na trajetória de quem passou pelo tatame. Primeiro faixa-preta formado pela casa e com mais de duas décadas dedicadas ao esporte, Alexandre Henrique de Souza, o “Mestrinho”, hoje se dedica ao ensino após uma carreira como competidor. “O jiu-jitsu te coloca numa orientação para a vida como nenhuma outra coisa”, diz. Para ele, conceitos como hierarquia e respeito não são ensinados de forma teórica, mas vividos na prática, na repetição, no convívio e, sobretudo, na necessidade de controlar o ego. 

No dia a dia, essa dinâmica cria um ambiente onde confiança e responsabilidade são inegociáveis. Professor e árbitro, Arnaldo Bueno, que começou a treinar ainda adolescente, resume essa construção de forma direta: “Eu falo que o jiu-jitsu salvou a minha vida”. Segundo ele, cada treino é um acordo silencioso entre os alunos. “Você está emprestando o seu corpo para o outro treinar, e ele está fazendo o mesmo por você. Isso exige controle, respeito e consciência o tempo todo.” É nesse equilíbrio, entre técnica, disciplina e desenvolvimento individual, que a academia consolidou seu perfil e formou não apenas atletas, mas pessoas.

O jiu-jitsu como ferramenta de alta performance

No tatame, a pressão não é exceção, é regra. Desde os primeiros treinos, o praticante é colocado em situações limite, onde força, técnica e, principalmente, controle emocional são testados o tempo todo. É nesse ambiente que o jiu-jitsu constrói uma das suas principais competências: a capacidade de manter a calma em cenários adversos.

Arnaldo resume esse aprendizado de forma direta: “Você aprende a ficar calmo durante a pressão, a ter tranquilidade no meio da tempestade”. Segundo ele, essa habilidade, desenvolvida de forma contínua no treino, se estende naturalmente para outras áreas da vida. “Isso faz diferença para qualquer tipo de pressão que você tenha fora daqui.”

Mais do que preparo físico, o jiu-jitsu exige leitura e adaptação constantes. Em um mesmo treino, é possível enfrentar adversários mais fortes, mais rápidos ou tecnicamente superiores e, ainda assim, encontrar caminhos para sair da posição de desvantagem. “Tem hora que você precisa parar, dar dois passos para trás e recomeçar”, diz Arnaldo. Uma lógica que, fora do tatame, se traduz em algo essencial: saber recuar, ajustar a estratégia e seguir em frente.

Disciplina como ativo

Em um contexto em que a busca por alta performance se tornou constante, o jiu-jitsu surge como uma resposta que vai além de métodos tradicionais. Ele não apenas exige disciplina, ele a constrói, diariamente, por meio da repetição, da frustração e da evolução gradual. Para “Mestrinho”, essa é uma das principais forças da modalidade. “O jiu-jitsu te coloca numa orientação para a vida”, afirma. Uma orientação que passa, inevitavelmente, pelo controle do ego. No tatame, perder faz parte do processo e aprender com a perda é o que sustenta o progresso.

Não por acaso, muitos dos que chegam à prática buscam exatamente isso: um ambiente onde é possível sair da lógica previsível do escritório e enfrentar um tipo diferente de desafio. Um espaço onde disciplina, clareza e resiliência deixam de ser conceitos abstratos e passam a ser vividos de forma concreta, e é justamente essa experiência que tem atraído, de forma crescente, executivos e líderes em busca de uma nova forma de desenvolver performance.

Entre reuniões e treinos: a nova rotina dos executivos

No tatame, cargos, títulos e conquistas profissionais rapidamente perdem relevância. O ponto de partida é outro: o de aprendiz. É justamente essa inversão que tem atraído um número crescente de empresários e executivos para o jiu-jitsu. Acostumados a ambientes onde dominam decisões e lideram equipes, eles encontram na prática um território onde é preciso recomeçar com escuta e disposição para evoluir.

Rodrigo Losi, sócio do Grupo Quadra e aluno da Gracie Morumbi

De acordo com Rodrigo Losi, sócio do Grupo Quadra e praticante de jiu-jitsu, “a arte marcial tem me dado oportunidades de pensar diferente”. Mais do que um esporte, ele enxerga a modalidade como uma ferramenta de construção pessoal, disciplina e controle emocional. “Imagina, uma faixa branca tem que ficar um ano e pouco, pelo menos, se tiver muita dedicação para conseguir graduar, então o mercado também, você precisa se preparar muito. Quando você é um iniciante no mercado e fala ‘quero vender amanhã’, é muito difícil. Então assim, no jiu-jitsu, para você dizer que sabe lutar, leva tempo, é dedicação.” 

Para Arnaldo Bueno, esse é um dos aspectos que mais impactam o público executivo. “Muitas vezes, são pessoas que estão acostumadas a ocupar posições de liderança e domínio no que fazem. E aqui, começam do zero”, explica. “Esse exercício de ego, de se colocar como aprendiz, faz uma diferença muito grande no desenvolvimento.”

A experiência, ainda que desconfortável no início, revela um tipo de aprendizado raro fora daquele ambiente. Diante de desafios físicos intensos e situações de pressão constante, o praticante é levado a reorganizar o pensamento, controlar a ansiedade e buscar soluções com clareza. “Tem aluno que fala: ‘não estou acostumado a chegar em um lugar e ser o que sabe menos’. E isso transforma”, conta Arnaldo.

Mais do que técnica, o que se constrói é repertório emocional. A capacidade de lidar com adversidade, insistir diante da dificuldade e encontrar saídas sob pressão passa a se refletir também no ambiente profissional. “Isso transborda para outros aspectos da vida. A pessoa começa a entender que, assim como no treino, tudo tem uma saída.”

Essa conexão ajuda a explicar por que o jiu-jitsu vem atraindo, de forma crescente, um público exigente e orientado a desempenho. Como observa Fábio Leopoldo, a própria evolução da modalidade contribuiu para esse movimento. “O jiu-jitsu abriu as portas para um público que busca alto desempenho e passou a enxergar a prática como uma ferramenta real de desenvolvimento de identidade, de caráter e de capacidade.”

O que o tatame revela sobre o presente

 Em um mundo cada vez mais acelerado, onde decisões precisam ser tomadas em ritmo constante e a pressão se tornou parte da rotina, cresce também a busca por práticas que ofereçam desempenho e equilíbrio. O jiu-jitsu se insere nesse contexto como um reflexo de uma mudança mais ampla de comportamento. A valorização da disciplina, da constância e do autoconhecimento aponta para um novo entendimento de performance, menos associado ao excesso e mais conectado à consciência.

Nesse sentido, o tatame se tornar um ambiente de construção. Um lugar onde corpo e mente são trabalhados de forma integrada, e onde conceitos como resiliência, estratégia e controle deixam de ser abstrações para ganhar forma na prática.

É a partir dessa leitura que a Quadra Realty observa o movimento com atenção. Mais do que acompanhar tendências, trata-se de compreender as transformações no estilo de vida de um público que valoriza experiências com significado, e que busca, cada vez mais, escolhas alinhadas a esse novo olhar sobre bem-estar e alta performance.

Anna Valfogo
Redatora

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